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Oito minutos

12 de junho de 2020
Tempo de leitura: 5 minutos

Heraldo Firmino

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Nos últimos meses, com o isolamento social, diversos cursos da Escola Doutores da Alegria foram afetados e estão passando por adequações. Entre eles, o Programa de Formação de Palhaço para Jovens, curso mais extenso, que está acontecendo por meio de aulas remotas. Esta turma do curso é predominantemente composta por negros e negras, que têm suas vidas em constante perigo e, se não bastasse, agora tem um vírus que é mais letal entre a população pobre e negra, como apontam os órgãos de saúde.

Doutores da Alegria conseguiu manter a bolsa que todos os estudantes recebem, além de uma cesta básica, resultado da parceria com a ONG União SP que, por meio da estrutura oferecida, permite que estes jovens possam ficar em casa, estudando com segurança, em tempos tão críticos. Assim estamos conseguindo manter a participação nas aulas de 95% por parte dos estudantes, o que demonstra que tais resultados são bem diferentes do que está acontecendo nas escolas de educação básica e de arte pelo Brasil.

Este é um lado da moeda: conseguimos dar uma estrutura básica, em respeito à dignidade humana. Nas aulas, cantamos, dançamos, aprendendo música, palhaçaria, enfim, estamos conectados, porém, os relatos diários que os estudantes trazem têm um lado de esperança e outro desolador. Temos que parabenizar toda a organização que está se empenhando para que não percamos nenhum estudante neste momento e, em especial, todo nosso respeito e gratidão à nossa assistente social e aos professores e professoras que estão mantendo as aulas, num trabalho exaustivo de criação para oferecer aos alunos conteúdos significativos nas aulas remotas.

Em linhas gerais, os relatos mostram que eles e elas estão conseguindo ficar em casa, mas que, da porta para fora existe a violência social, policial, política, que mata, acabando com qualquer narrativa saudável. São obrigados, desde cedo, a ter uma sanidade mental poderosa. Mas não se enganem: são jovens de muito talento e opinião, e a arte é nosso viés de conexão, vamos com ela porque ainda é um dos únicos e verdadeiros elos que conseguimos trocar e fortalecer.

foto: REUTERS/Caitlin Ochs

É neste momento tão delicado que estamos vivendo que chega a notícia do assassinato de George Floyd nos Estados Unidos. Como não nos afetar com suas últimas palavras?

“Cara, meu rosto
Eu não fiz nada grave
por favor
por favor
por favor, eu não consigo respirar
por favor, cara
por favor, alguém
por favor, cara
Eu não consigo respirar
Eu não consigo respirar
por favor
(inaudível)
cara, eu não consigo respirar, meu rosto
sai de cima
Eu não consigo respirar
por favor (inaudível)
Eu não consigo respirar, droga
Eu vou
Eu não consigo me mexer
mãe
mãe
Eu não consigo
meu joelho
meu saco
eu vou morrer
eu vou morrer
Me sinto claustrofóbico
meu estômago dói
meu pescoço dói
tudo dói
alguém me dê água ou algo
por favor
por favor
eu não consigo respirar, policial
não me mate,
cara, eles vão me matar
por favor
Eu não consigo respirar
Eu não consigo respirar
eles vão me matar
eles vão me matar
Eu não consigo respirar
Eu não consigo respirar
por favor, senhor
por favor
por favor
por favor, eu não consigo respirar”

George fechou os olhos e as súplicas pararam. Ele foi declarado morto pouco tempo depois. Foram 8 minutos e 46 segundos. George Floyd, negro, 46 anos, ficou com um joelho em seu pescoço, imobilizado, foi asfixiado, enforcado por um policial branco enquanto dizia “Não consigo respirar”. Experimente fechar os olhos e pense ser sufocado durante 8 minutos e 46 segundos – ou tente assistir ao vídeo inteiro, que está espalhado pela rede, e respirar enquanto vê.

João Pedro, 14 anos, negro, estava na casa dos tios em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, cumprindo a quarentena. Foram setenta tiros dentro da casa em que o adolescente se encontrava. Ele recebeu tiros nas costas. A polícia levou seu corpo e a família só teve notícias 17 horas depois.

Você que está em casa agora, lendo isso em quarentena, consegue imaginar 70 tiros invadindo seus ouvidos? Sangue por todos os lados, massacre, assassinato em sua casa. Dói em pensar, né? Pois é, as duas famílias sentem essa dor, mas não estão sozinhas, muita gente se compadece dessa dor, e isso não é novo.

Os negros, as negras e os povos indígenas deste país não conseguem respirar!

#ParemDeNosMatar, #BlackLivesMatter ou #VidasNegrasImportam são chamados, ações que mobilizam a luta contra o racismo e a desigualdade mundo afora. Nos EUA a situação estourou. Os negros e pessoas antirracistas foram às ruas protestar. Manifestações acontecem agora pelo mundo todo. O combate à onda fascista encontrou abrigo nos protestos contra o racismo, mas a marcha é em prol de justiça para o povo preto. Combater o racismo e combater o fascismo, aqui no Brasil, é a luta legítima contra o fascismo, mas tende a esconder o motivo do povo na rua.

“Numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.
Ângela Davis

Mais uma vez o mito da democracia racial coloca a luta do povo preto em segundo e terceiro planos. Os protestos têm sido pacíficos e violentos, é o ser humano reagindo à violência da pior doença social – o “racismo” -, e querem classificar os protestos como “terrorismo”. Lá e aqui, os negros e negras são massacrados pelo estado e instituições privadas: esse é o terrorismo.

O mito da democracia racial faz com que muitos brasileiros naturalizem esse comportamento contra o povo afro ameríndio. Falamos aqui do “racismo estrutural”. Por isso, a morte de João Pedro e tantas vidas negras e indígenas não ganham espaço para discussão, choca nos noticiários e logo cai no esquecimento.

Mas quem chora a dor dos seus (e somos muitos, 56.10%,) não esquece e luta, mas o sistema “necropolítico” (Achille Mbembe) impera. A dor de negros e negras não tem fronteiras. A escravidão dos africanos e seus descendentes esteve e está no mundo todo e o Brasil foi o último país a aboli-la.

A luta por justiça na morte de George, Marielle, João, Marina, Carlos, Miguel etc… está em curso e o povo preto saiu para rua. E aí estamos num impasse, pois o vírus também está na rua, e não por acaso mata mais pessoas negras e pobres, com um sistema de saúde que já estava em colapso.

Já temos o destino de George Floyd acontecendo. Não conseguimos respirar.

Nesse momento, só piorou e botou uma lente no país mais racista do planeta. O Brasil está mostrando a cara para o mundo, com uma classe dominante com pensamento colonizado, racista, eugenista, que faz com que uma imensa parcela de negros e negras não consigam sair dos maiores bolsões da pobreza extrema. “Fiquem em casa”, mas quem pode ter esse luxo? A classe média e alta!  Não sejamos hipócritas, o povão com sua maior parcela de gente negra não pode ficar em casa, os povos indígenas têm suas terras invadidas, são mortos pela violência e pelo vírus, a “gripezinha” já matou mais de 35 mil pessoas e vai matar mais, muito mais. Este vírus é letal e enquanto nós morremos, a classe dominante e seus fantoches assistem em quarentena pela tv, como foi o caso de George Floyd.

Ser ou não ser? Morrer em casa pelo vírus e violência política, policial e social, ou ir para rua brigar pelo direito à vida? A escolha é sempre por paz e pela vida, mas o sistema não está dando opções.

Virão aqueles que vão falar sobre vitimismo.

Virão aqueles que vão dizer que somos todos iguais.

Virão aqueles dizer que estamos todos sofrendo.

Virão aqueles que não conseguem ler um texto desse sem sofrer, e depois vão comer uma pizza.

A cor negra é um marcador social. Se pergunte: Você gostaria de receber o mesmo tratamento que as pessoas negras recebem neste país? Então seja a mudança, não espere morrer mais gente!

Os governos estaduais e municipais estão deliberando, em nome da economia, a volta à rua dos trabalhadores e trabalhadoras. Com isso, estão propondo um genocídio, já que todos os países que flexibilizaram isso antes do tempo tiveram aumento de casos. A expectativa feita por cientistas é que aumentará em 150%, em 10 dias, o número de infectados. Esta escala não vai parar de subir, a situação está longe de ter um fim e esta luta também. Se puder fique em casa, mas não esqueça que tem gente trabalhando para que você fique e, em nome delas, respeite isso.

Mas não se cale, tem gente morrendo. Qual será sua atitude antirracista? Estamos em luta e luto!



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